Sapos que engolimos sem perceber

Lendo um artigo já antiguinho (2012) sobre proteínas e saciedade quase caí da cadeira com as informações. Confesso que fui checar todas as referências — leia-se: ler os trabalhos que o artigo mencionava o que dá muito mais trabalho. Estou contando isso para que você entenda que muitas vezes aquilo que temos como verdade é apenas um pré-conceito, criado por um bombardeamento de informações passadas por campanhas de marketing. Quando você se dá conta, já ouviu tanto a mesma coisa, que nem se questiona mais sobre o fato. Ainda mais se você não estiver ligado à área em questão.
Isso acontece com decisões sobre todos os nossos passos: finanças, jeito e local onde morar, produtos de consumo, entretenimento e também aquilo que comemos!
Então vou contar para você o meu preconceito, mesmo sendo médica…
Sempre achei que gelatina era uma proteína de fácil incorporação na dieta, e que deveria ser a escolha quando você queria comer alguma coisa mais saudável e não tivesse muitas escolhas. Cheguei a ouvir que era bom comer gelatina pois caso você perdesse peso não ficaria com flacidez. Afinal, gelatina é proteína e pode ser aproveitada para fazer colágeno, que é a fibra que sustenta os nossos tecidos. Meu Deus!
Então, o que é verdade, e o que engoli como sapos nessa conversa? Vamos lá no passo-a-passo da história toda.
VERDADE: Quando comemos alimentos ricos em proteína temos uma sensação de saciedade um pouco mais prolongada do que quando comemos outros mais ricos em carboidratos ou gorduras. Atenção que alimentos de verdade são produtos compostos de vários nutrientes e não apenas uma coisa só, dai a importância de se variar sempre as escolhas.
A saciedade acontece pela liberação de alguns hormônios gástricos e intestinais que fazem a digestão das proteínas gastando mais tempo e energia pela complexidade do processo. Proteína não fica em estoque no corpo, ou ela é digerida em aminoácidos que são utilizados para compor outras proteínas, ou o fígado transforma a proteína em açúcar para ser queimado como fonte de energia ou em uréia para ser eliminada pelos rins.
Nesse processo há também liberação de insulina, que além de ser um hormônio regulador do açúcar no sangue, tem a capacidade de estimular substâncias que causam inflamação e ainda impede, enquanto presente na circulação, a utilização de gorduras estocadas no tecido gorduroso.
Então primeiro fato: proteína precisa ser ingerida na quantidade certa, o excesso engorda, inflama e sobrecarrega funcionamento do fígado e rins.
O segundo ponto é a qualidade dessa proteína, que é determinada pelo tipo de aminoácidos que a compõe. Os aminoácidos são as menores partes da digestão da proteína. Alguns são essenciais, porque não podemos produzir sozinhos e temos que ingerir para poder manter nossa produção de proteínas. Outros podem fabricados pelo nosso corpo. Uma proteína chamada de alto valor biológico é aquela que tem todos os aminoácidos essenciais na sua composição. Assim ela nos dá uma nutrição de valor.
Valor nutricional da gelatina? Muito baixo…
A gelatina é uma proteína muito pobre em aminoácidos essenciais e quase sempre a comemos associada a corantes sintéticos e açúcar refinado. E isso você já sabe que não é nada saudável.
Sabe aquilo que você só come quando está há dias perdido no deserto ou sobreviveu a um naufrágio e não tem muitas opções? Pois é, gelatina entra nesse momento na sua lista de alimentos…

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